O outro não é objeto, é palavra!
A verdadeira escuta nos ensina a acolher o outro para além de nossas interpretações, reconhecendo sua dignidade e abrindo espaço para um encontro transformador.
Vivemos, muitas vezes, aprisionados em nossas próprias interpretações. Olhamos para o outro e, sem perceber, construímos imagens, conceitos e expectativas que procuram explicá-lo. No entanto, existe uma dimensão mais profunda no encontro: o outro não é objeto, é palavra.
Quando nos aproximamos verdadeiramente de alguém, descobrimos que sua realidade não pode ser reduzida ao que imaginamos. O outro não é algo que simplesmente vemos, mas é alguém que escutamos.
As Escrituras nos orientam: “Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar” (Tiago 1.19). A escuta precede a fala, pois “responder antes de ouvir é estultícia e vergonha” (Provérbios 18.13). Não se trata apenas de falar sobre aquilo que compreendemos a respeito do outro a partir de nossa limitada percepção e imaginação. Há algo que se revela a nós.
O outro, como palavra, revela algo que surge como novidade e nos causa assombro, diferente de tudo o que havíamos pensado ou imaginado. Há aqui uma sabedoria delicada: compreender pode ter sua importância, mas não basta. A revelação é um movimento distinto da compreensão. Deus mesmo nos lembra: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos” (Isaías 55.8). A vida humana é maior do que nossos esquemas mentais e nossas tentativas de explicação.
Existe algo de inesperado que emerge quando a escuta se amplia e se torna verdadeiramente disponível. Por isso, a escuta é um chamado. Ela nos convida a sair da defesa, da pressa e do julgamento. O grande mandamento de Israel começa justamente com um convite à escuta: “Ouve, Israel” (Deuteronômio 6.4). Escutar é oferecer espaço para que o outro se aproxime, se revele e nos surpreenda. É criar um lugar de acolhimento onde a pessoa possa manifestar aquilo que carrega em seu coração.
Jesus, em diversos momentos, demonstrou que ouvir é um ato de amor. Antes de responder, Ele perguntava, acolhia e permitia que as pessoas expressassem sua dor, sua esperança e sua fé. Assim, a verdadeira escuta torna-se uma forma de serviço e cuidado. Quem ama se dispõe a ouvir, pois “o amor é paciente” (1Co 13.4) e busca acolher sem julgar.
No fundo dessa experiência, percebemos que há uma mensagem amorosa que nos alcança. O outro, como palavra, comunica algo de sua própria humanidade, criada à imagem de Deus (Gênesis 1.27). Surge, então, um reconhecimento silencioso da dignidade humana, capaz de sustentar o encontro e aprofundar a intimidade entre as pessoas. O amor torna-se vínculo, conforme ensina o apóstolo Paulo: “Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição” (Colossenses 3.14).
Por fim, a escuta também se manifesta na resposta. Quando não respondemos, revelamos que aquilo que ouvimos não encontrou lugar em nós. A Bíblia ensina que não basta apenas ouvir, mas é necessário acolher e corresponder: “Sede praticantes da palavra e não somente ouvintes” (Tiago 1.22). O acolhimento do que o outro nos revela também se expressa na forma como nos revelamos em resposta a ele.
Assim, o diálogo transforma-se em um caminho de mútua transformação, no qual cada pessoa deixa de ser objeto de observação para tornar-se palavra viva, fonte de revelação, alimento e cuidado. Nessa dinâmica, cumprimos a exortação apostólica: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6.2). Afinal, carregar a história do outro começa, antes de tudo, por escutá-lo.
Fonte: Guiame, Clarice Ebert - REPOSTAGEM: RÁDIO UNIDADE DIGITAL E DIGITAL DA VOZ PRODUTORA.






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